Sujeito simples, parágrafo, exclamação. |
Palavras alinhadas. Uma depois da outra. Com ou sem sentido. |
Não! Não quero ninguém me olhando. Não quero ninguém orando. Peco sozinho para não atrapalhar paraísos mais necessários que o meu. Peço perdão por minha ingenuidade e absolvo almas impuras, infelizes e inquietas. Acontece.
Olhou para o retrato no criado-mudo, mudo:
“Só consigo essa leveza sob seu olhar oliva
E meio vermelho de vergonha, deixo que me leve
Por uma estrada desenhada em cor viva”
No espelho, a imagem refletida refletia:
“Pele, serena
Terás a sua pele pequena
Em sua leve e terna terrena?”
Despida de vergonha, despiu-se à sua frente:
“Só consigo essa leveza quando lhe sigo com o olhar
E sem perceber, deixo você livre, leve
E compreendo que esse brilho dispensa qualquer luar”
Acordado, velava seu sono, sem sono:
“Macia, vizinhas
Perdidas em linhas
Dias a dias corridas
Gota a gota em trilhas minhas”
(n.a. este texto foi concebido em parceria com a minha amiga Simonte Tomé, o talento desprentencioso dela com as palavras deu leveza ao texto.)
Toda vez que procuro por palavras, no fundo, estou a me procurar.
Frente ao rio, sou sujeito simples, feito tantos outros hipnotizados pelo horizonte.
Tenho dias de verbo transitivo, procuro algo, procuro alguém.
Se pudesse, transformava cada imagem vista em palavra dita.
Para mim, vale mais a palavra vivida que mil vidas imaginadas numa imagem.
Penso nas precipitações vividas.
Nas partidas precipitadas.
Nas idas ainda no princípio.
Todas aquelas que colocaram-me à beira do precipício.
Penso nas buscas sofridas.
Na necessidade do sofrimento que ensina.
No deslize de sofrer por um amor que não desafia.
Tampouco desafina.
Penso nos outros “eus”.
Na herança do poeta fingidor que tinha tantos dele.
No soneto ainda adolescente.
Com seus catorze versos a revelar tudo que sente.
Penso, simplesmente por pensar.
É minha maneira despretensiosa de orar.
Como uma oração com pretérito perfeito.
De sujeito simples, tímido e meio sem jeito.
Cereal matinal abraçado com duas caixas de leite integral.
“São Paulo, 6h30. Repita. Seis e meia”. Saltou da cama com o coração tentando escapar-lhe pela boca. Ela não estava. Procurou pela casa por um recado. Verificou a porta da geladeira, o celular e a caixa de e-mail. Nada. Só um delicado e quase imperceptível perfume com acordes de pimenta e madeira. Tomou café e saiu apressado. Na portaria, o porteiro sorriu um sorriso malicioso e deu bom dia. “Só se fosse para ele”, pensou.
Espagueti número 8, tomates frescos e um maço de manjericão.
“Brasília 19 horas, esta é a hora do Brasil”. Desligou o rádio e começou a cantarolar uma música qualquer. Não estava interessada em comissões parlamentares e acordos internacionais. Preocupava-se sim com o trânsito parado e com o pouco tempo que tinha. Ordenou mentalmente o que faria ao chegar em casa: água no fogo, banho quente, cinta-liga; al dente? O coração palpitava trêmulo. Era como se alertasse sobre o perigo daquilo tudo. Ela o amava. Seria uma única vez, apenas para sentir o gosto do risco. “Será?”, duvidou ao entrar no elevador e perfumar o ambiente com majericão fresco.
Cabernet Sauvignon, safra 2009
Acontecia toda sexta-feira, fazia meses. Somente uma garrafa de vinho tinto. Solitária, sem queijo (muito menos um beijo, diriam as crianças). Preparava-se para mais uma noite longa tentando esquecer dias inesquecíveis. Coração vazio, taça cheia, conhecido ritual modernista, inspirado num antigo costume pagão. Mudava o rótulo, variava a uva, mas o sentimento era o mesmo. Houve uma vez que deixou escapar: “sextas me deprimem”.
Sorvete de chocolate
Era uma vez alguém que apaixonou-se por quem não devia. Azar de quem acordou de ressaca e sozinho na manhã seguinte. Sorte de quem foi para casa antes de servirem a sobremesa. “Não perdeu nada, era sorvete de chocolate”, revelou enquanto ele completava a tigela de cereal com leite integral e ela recolhia as taças de vinho caídas no tapete. Vai ficar marca.
A certo ponto do caminho, parou. Sentou. Respirou. Bateu o pó. Tirou as pedras do sapato que incomodavam e começavam a calejar. Sim, é possível calejar o que já está calejado. Depois de analisar os calos, calou por um instante. Ficou em silêncio, mas ainda ouvia sua consciência. Boca seca. Roupa empoeirada. Calos da vida. A vida em modo automático. Fitou o caminho adiante. Havia uma curva, nada à vista. Certamente, emoções a prazo. Voltou-se para o caminho já percorrido. O pó da estrada turvava a visão e distorcia as lembranças. A brisa lembrou a dor do poeta disfarçada no soneto. Tirou um papel amassado do bolso, molhou a ponta do lápis com a língua e rabiscou meia dezena de palavras. Dobrou e colocou sob uma pedra grande. Passaram-se 10 segundos. Levantou. Respirou. Bateu o pó. Fez a curva e sumiu. Era o último pôr-do-sol do ano.
E porque gosto tanto de você, ouço seu silêncio.
Meias palavras que seriam suficientes,
se eu não gostasse tanto de você.
E porque gosto de você mais do que eu devia, fico em silêncio.
Com palavras suficientes para me convencer
de que ainda é menos do que você precisa.